O Problema Não É o Vício. É o Alívio.

"Quando eu bebo, a cabeça para." Quem trabalha com dependência química ouve essa frase muitas vezes, em versões diferentes. Raramente a pessoa fala de prazer. Fala de silêncio, de descanso, de conseguir dormir, de não sentir por algumas horas aquilo que, sóbria, parece insuportável.
Essa observação muda o rumo da conversa. Se o uso é, antes de tudo, uma forma de alívio, então a pergunta "por que você não para?" chega tarde. A pergunta que vem antes é outra: alívio de quê?
O médico canadense Gabor Maté, que trabalhou por anos com usuários de drogas em Vancouver, resumiu essa virada numa frase que ficou conhecida: a pergunta não é por que o vício, e sim por que a dor. A tese deste texto segue essa linha. Entender a função do uso não justifica o dano, mas é o caminho mais eficaz para tratá-lo. Os mecanismos cerebrais da recompensa foram discutidos em Por que buscamos alívio imediato?; aqui, o foco é a dimensão emocional e clínica.
A hipótese da automedicação
Em 1985, o psiquiatra Edward Khantzian, da Universidade Harvard, publicou no American Journal of Psychiatry um artigo que se tornou referência. Ele observou que seus pacientes não escolhiam as substâncias ao acaso. Tendiam a se aproximar daquelas que aliviavam estados emocionais específicos.
Na leitura de Khantzian, pessoas tomadas por raiva ou agitação intensa encontravam nos opioides um efeito calmante. Pessoas deprimidas ou sem energia eram atraídas por estimulantes. Pessoas com ansiedade social ou rigidez emocional encontravam no álcool uma forma de relaxar as defesas e se aproximar dos outros.
A hipótese da automedicação tem apoio parcial na pesquisa, e não explica todos os casos. Mas ela trouxe uma mudança de olhar que continua valiosa: o uso de substâncias pode ser uma tentativa, ainda que custosa, de resolver um sofrimento real.
Do prazer ao alívio: como o ciclo muda com o tempo
Os neurocientistas George Koob e Michel Le Moal descreveram como a dependência se transforma ao longo do tempo. No início, o uso costuma ser movido por reforço positivo: a substância traz prazer, euforia, desinibição. Com o uso repetido, o cérebro se adapta, e os sistemas ligados ao estresse passam a funcionar em outro patamar.
O resultado é uma inversão. A pessoa passa a usar menos para se sentir bem e mais para deixar de se sentir mal. Koob chamou esse estágio de lado sombrio da dependência: o uso é mantido por reforço negativo, isto é, pelo desconforto que ele interrompe. Ansiedade, irritabilidade e tristeza na ausência da substância viram o principal motor do comportamento.
Em termos práticos: quando alguém diz que nem gosta mais de beber, mas não consegue parar, não está sendo incoerente. Está descrevendo com precisão esse momento do ciclo.
A dor que vem antes
Em 1998, Vincent Felitti e Robert Anda publicaram os resultados do Estudo de Experiências Adversas na Infância, conduzido com mais de 17 mil adultos nos Estados Unidos. Abuso, negligência, violência doméstica e uso de substâncias pelos pais foram contabilizados como experiências adversas.
Quanto mais experiências desse tipo uma pessoa tinha vivido, maior era o risco de alcoolismo, uso de drogas, depressão e tentativas de suicídio na vida adulta. Quem tinha quatro ou mais experiências adversas apresentava um risco entre quatro e doze vezes maior para esses desfechos, em comparação com quem não tinha nenhuma.
Isso não significa que toda pessoa com dependência sofreu trauma, nem que todo trauma leva à dependência. Mas mostra que, para muita gente, a substância chegou depois da dor, e não o contrário.
Por que o julgamento não funciona
Diante de alguém que usa de forma prejudicial, a reação mais comum é a cobrança moral: falta de vergonha, falta de força, falta de amor pela família. O problema é que vergonha é exatamente um dos estados que a substância costuma aliviar.
Um estudo de Daniel Randles e Jessica Tracy, publicado em 2013, acompanhou pessoas em recuperação do alcoolismo. Aquelas que demonstravam mais sinais corporais de vergonha ao falar sobre a última vez que beberam tiveram maior probabilidade de recaída nos meses seguintes. A vergonha não protegia. Previa a volta ao uso.
A relação entre estigma e tratamento foi discutida em Dependência não é falta de caráter. O ponto aqui é prático: humilhar aumenta a dor, e mais dor aumenta a necessidade de alívio.
O que muda quando o cuidado olha para a função
Perguntar o que o uso faz pela pessoa. Dormir, calar uma lembrança, enfrentar uma situação social, preencher um vazio. Cada resposta aponta para uma frente de tratamento diferente.
Tratar o que vem junto. Ansiedade, depressão, trauma e transtornos de humor precisam de cuidado próprio, desde o início, e não só depois que a pessoa "estiver limpa".
Construir outras formas de alívio. Retirar a substância sem oferecer alternativas deixa a pessoa sozinha com a dor que motivava o uso. Psicoterapia, vínculos, rotina, sono e atividade física entram aqui.
Considerar a redução de danos. No Brasil, ela faz parte das diretrizes do SUS e é aplicada nos CAPS AD. Diminuir riscos e manter a pessoa vinculada ao cuidado já é tratamento.
Ler a recaída como informação. Uma revisão de Thomas McLellan e colegas, publicada no JAMA em 2000, mostrou taxas de recaída na dependência semelhantes às de outras doenças crônicas, como hipertensão e asma. O tema é aprofundado em Dependência química e recaída.
Para quem convive: aproximar funciona melhor do que confrontar
Familiares costumam ouvir que só resta esperar a pessoa "chegar ao fundo do poço" ou organizar um confronto para obrigá-la a aceitar tratamento. A pesquisa aponta outro caminho. O psicólogo Robert Meyers desenvolveu o CRAFT, sigla em inglês para Reforço Comunitário e Treinamento Familiar, uma abordagem que ensina a família a se comunicar sem acusação, a valorizar os momentos sem uso e a deixar que as consequências naturais do uso aconteçam, sem encobri-las.
Em estudos comparativos conduzidos por Meyers, William Miller e colegas, o CRAFT levou mais pessoas ao tratamento do que abordagens de confronto. Além disso, os próprios familiares relataram menos sofrimento, mesmo quando o parente ainda não tinha procurado ajuda.
A lógica é a mesma deste texto: quando a casa se torna um lugar de humilhação, a substância continua sendo o único alívio disponível. Quando a casa oferece algum acolhimento, o tratamento passa a parecer possível.
O que este texto não está afirmando
Não está afirmando que entender a dor apaga a responsabilidade pelos danos. O uso prejudicial afeta famílias, relações e a própria saúde, e essas consequências precisam ser encaradas. Compreender a função é o que torna possível mudar, não uma desculpa para não mudar.
Também não está dizendo que a dependência é só emocional. Genética, ambiente, idade de início do uso e disponibilidade da substância contam muito. E, depois que o cérebro se adapta, a substância produz efeitos próprios que exigem tratamento específico.
Um cuidado importante: a interrupção abrupta do uso de álcool e de alguns medicamentos sedativos pode causar quadros de abstinência graves. Parar deve ser feito com acompanhamento médico. A relação entre uso de substâncias e risco de suicídio foi discutida em Álcool, drogas e risco de suicídio.
Tirar o alívio sem oferecer outro é deixar a pessoa sozinha com a dor
Tratar a dependência não é apenas retirar algo da vida de alguém. É ajudar essa pessoa a encontrar outras formas de atravessar aquilo que doía antes da substância, e que provavelmente continua doendo depois que ela sai de cena.
Se você convive com alguém nessa situação, troque uma cobrança por uma pergunta: "o que isso tem te ajudado a aguentar?". Se é você quem está nesse ciclo, procure um serviço especializado ou um profissional de confiança. Pedir ajuda não é confessar uma falha. É começar a cuidar da dor por outro caminho.
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Onde buscar ajuda
Rede pública: procure o CAPS AD (álcool e drogas) ou a Unidade Básica de Saúde da sua região
CVV, Centro de Valorização da Vida: ligue 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br
Emergência: SAMU 192 · UPA ou pronto-socorro mais próximo
Em caso de intoxicação ou sintomas graves de abstinência, procure atendimento de emergência imediatamente.
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Estudos da Psique
Psicologia, Neurociência e Saúde Mental baseadas em evidências
Telefone/WhatsApp: 11 99135-1672




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