Quando Educar É Mais do que Dar Acesso

O nome está na lista de chamada. A matrícula foi feita, o uniforme foi entregue, há uma carteira reservada. Em março, o estudante aparece todos os dias. Em maio, falta às sextas. Em agosto, ninguém lembra a última vez que ele veio. No relatório, o motivo registrado é "desinteresse".
Essa história se repete em escolas de todo o país. Na PNAD Contínua de 2019, o IBGE identificou que cerca de 20% dos jovens de 14 a 29 anos não tinham concluído a educação básica. Entre os motivos mais citados para ter deixado a escola estavam a necessidade de trabalhar e, logo depois, a falta de interesse.
A tese deste texto é que "desinteresse" raramente é a explicação completa. Muitas vezes, é o nome dado ao que acontece quando o estudante entra na escola, mas não encontra nela um lugar. Garantir acesso é indispensável. Educar, porém, exige também garantir permanência, pertencimento e cuidado com a saúde mental de quem aprende e de quem ensina.
A lei já fala em permanência
A Constituição Federal de 1988, no artigo 206, estabelece como primeiro princípio do ensino a "igualdade de condições para o acesso e permanência na escola". A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a Lei 9.394 de 1996, repete o mesmo princípio no artigo 3º.
O texto legal não fala apenas em entrar. Fala em ficar, e em condições iguais para isso. Quando um estudante abandona a escola por fome, por violência, por discriminação ou por sofrimento psíquico sem acolhimento, não é só um percurso individual que se interrompe. É um direito que deixou de ser cumprido.
Nos últimos anos, a legislação avançou também no campo da saúde mental. A Lei 13.935, de 2019, prevê psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de educação básica. A Lei 14.819, de 2024, instituiu a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. A implementação ainda é desigual, mas a direção está posta.
O que se esconde atrás do "desinteresse"
Quem trabalha com adolescentes sabe que o rótulo costuma encobrir situações bem concretas:
Necessidades materiais. Fome, falta de transporte, necessidade de trabalhar para ajudar em casa, cuidado de irmãos mais novos.
Violência dentro e fora da escola. Intimidação sistemática, que a Lei 13.185 de 2015 obriga as escolas a combater, violência no território, conflitos em casa.
Discriminação. Racismo, preconceito por orientação sexual, por condição social, por deficiência. A sensação de que certas pessoas não cabem ali.
Sofrimento psíquico. Ansiedade, depressão, uso de substâncias, luto. Quadros que reduzem concentração, energia e esperança, e que muitas vezes são lidos como preguiça.
Necessidades de aprendizagem sem adaptação. Dificuldades que, sem apoio, se transformam em repetidos fracassos e, com o tempo, em desistência.
Em termos práticos: quando um estudante some, a pergunta "por que ele não quer?" costuma ser menos útil do que "o que está tornando impossível para ele ficar?".
Pertencer protege
Em 1997, Michael Resnick e colegas publicaram no JAMA um dos maiores estudos sobre saúde de adolescentes nos Estados Unidos, com mais de 12 mil participantes. Dois fatores se destacaram como protetores contra sofrimento emocional, pensamentos suicidas, uso de substâncias e violência: o vínculo com a família e o vínculo com a escola.
Vínculo com a escola, nesse sentido, não significa gostar de todas as aulas. Significa sentir que ali existem adultos que se importam, que você é tratado com justiça e que faz parte de algo. A psicóloga Carol Goodenow chamou isso de senso de pertencimento escolar e mostrou que ele está ligado à motivação e ao esforço dos estudantes.
A Organização Mundial da Saúde e a UNESCO seguem a mesma linha nos padrões globais para escolas promotoras de saúde, publicados em 2021: o ambiente escolar seguro, inclusivo e acolhedor é tratado como parte da saúde, e não como um bônus.
O que transforma acesso em permanência
Cinco elementos aparecem com frequência nas escolas que conseguem manter os estudantes por perto.
1. Pelo menos um adulto de confiança
Um professor, uma coordenadora, um funcionário da secretaria. Alguém que percebe a ausência, pergunta e escuta sem julgamento. Para muitos adolescentes, essa relação é a principal razão para continuar indo.
2. Ambiente sem humilhação
Correções públicas que expõem, apelidos tolerados, piadas sobre a origem ou o corpo de alguém. Cada uma dessas situações ensina que a escola não é um lugar seguro.
3. Adaptar sem expor
A Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, garante adaptações para estudantes com deficiência. Mas o princípio vale para todos: ajustar o ritmo, o formato ou a avaliação sem transformar a diferença em espetáculo.
4. Rede com saúde e assistência social
A escola não precisa resolver tudo sozinha, e não deve. O Programa Saúde na Escola, criado em 2007, articula unidades de saúde e escolas. Conhecer o CAPS, a UBS e o CRAS do território faz diferença quando a necessidade ultrapassa a sala de aula.
5. Cuidado com quem cuida
Educadores sobrecarregados, sem apoio e sem tempo dificilmente conseguem oferecer escuta. A saúde mental de professores é parte da saúde mental da escola.
Sinais que pedem atenção na escola
Professores convivem com os estudantes por horas, todos os dias, e por isso muitas vezes percebem antes de todo mundo que algo mudou. Alguns sinais merecem um olhar mais cuidadoso, sobretudo quando aparecem juntos ou duram semanas:
Mudanças bruscas de comportamento. O estudante falante que se cala, o tranquilo que passa a se envolver em brigas.
Queda de rendimento sem explicação. Notas que despencam em pouco tempo, tarefas deixadas pela metade.
Faltas que se repetem. Especialmente em dias específicos ou depois de situações de conflito.
Isolamento. Comer sozinho, afastar-se do grupo, evitar o intervalo.
Cansaço e sono fora do comum. Dormir em sala com frequência, aparência de exaustão.
Falas de desesperança. Frases como "tanto faz", "não vou dar em nada", "seria melhor sumir". Estas pedem conversa no mesmo dia.
Diante desses sinais, o caminho é conversar com o estudante em particular, sem expô-lo, comunicar a família e acionar a rede: a Unidade Básica de Saúde, o CAPS infantojuvenil ou o serviço de psicologia escolar, quando houver. Se houver qualquer menção a se machucar ou a não querer viver, a orientação é não deixar o estudante sozinho e buscar ajuda imediata, pelo CVV (188) ou pelo SAMU (192).
O que este texto não está afirmando
Não está afirmando que professores devem fazer o papel de psicólogos. Educadores não diagnosticam nem tratam. Eles podem perceber mudanças, acolher e encaminhar, e essa já é uma função de enorme valor. Também não se trata de baixar expectativas. Exigir aprendizagem é uma forma de respeito; exigir sem oferecer condições é que é injusto.
E o acesso continua sendo uma luta em muitos lugares: em áreas rurais, para estudantes com deficiência, para quem vive em territórios violentos. Defender a permanência não diminui a importância de abrir portas. Amplia o que se espera depois que elas se abrem. Os desafios específicos dos adolescentes foram discutidos em A saúde mental dos adolescentes na era digital e em Adolescentes em sofrimento: sinais invisíveis que merecem atenção.
Abrir a porta é o começo, fazer ficar é educar
Paulo Freire escreveu, em Pedagogia da Autonomia, que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Criar possibilidades inclui o que acontece antes da aula: um estudante alimentado, seguro, visto e respeitado tem muito mais chance de aprender.
Se você é educador, escolha um estudante que tem faltado e faça uma pergunta diferente esta semana: não "por que você não veio?", mas "o que está difícil para você agora?". Se é mãe, pai ou responsável, pergunte à escola quem é o adulto de referência do seu filho ali dentro. Pequenas perguntas assim costumam ser o primeiro passo entre estar matriculado e pertencer.
━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━
Se você está preocupado com um estudante ou com alguém próximo
CVV, Centro de Valorização da Vida: ligue 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br
Emergência: SAMU 192 · UPA ou pronto-socorro mais próximo
Rede pública: procure a Unidade Básica de Saúde ou o CAPS infantojuvenil da sua região
━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━
Estudos da Psique
Psicologia, Neurociência e Saúde Mental baseadas em evidências
Telefone/WhatsApp: 11 99135-1672




Comentários