top of page

Os Mitos Mais Perigosos Sobre o Suicídio e Por Que Eles Custam Vidas

  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Mitos sobre o suicídio

O suicídio é uma das principais causas de morte evitáveis no mundo. A Organização Mundial da Saúde estima mais de 720 mil mortes por suicídio a cada ano, e ele está entre as principais causas de morte de jovens entre 15 e 29 anos. No Brasil, os registros oficiais apontam cerca de 16 mil mortes anuais, com tendência de alta entre adolescentes e adultos jovens.


Diante de números dessa dimensão, seria razoável esperar que a sociedade tivesse construído um repertório sólido para lidar com o tema. Não foi o que aconteceu. O que existe, na maior parte das conversas cotidianas, é um conjunto de crenças herdadas, repetidas sem checagem, que atravessam famílias, escolas, ambientes de trabalho e até equipes de saúde.


Essas crenças não são inofensivas. Elas determinam se alguém vai perguntar ou se calar, se vai levar a sério ou minimizar, se vai buscar ajuda ou esperar passar. Desfazer mitos sobre suicídio não é exercício acadêmico: é intervenção de saúde pública.


Mito 1: "Quem fala que vai se matar não faz"


Este é, provavelmente, o mito mais perigoso de todos, e o mais difundido.


A evidência aponta exatamente na direção oposta. A maioria das pessoas que morre por suicídio comunicou, de alguma forma, sua intenção nos meses ou semanas anteriores. Nem sempre com uma frase direta como "vou me matar". Frequentemente por vias indiretas: "vocês ficariam melhor sem mim", "não aguento mais", "logo isso vai acabar", despedidas fora de contexto, organização súbita de pendências, doação de objetos de valor afetivo.


Tratar a fala como blefe é justamente o que faz a pessoa parar de falar. E o silêncio é onde o risco cresce.


O que fazer com essa informação: toda menção a morte, desaparecimento ou desejo de não existir merece ser levada a sério e acolhida, não avaliada como sincera ou não.


Mito 2: "Falar sobre suicídio dá a ideia para a pessoa"


Uma revisão sistemática amplamente citada, conduzida por Dazzi e colaboradores e publicada na Psychological Medicine (2014), analisou estudos que perguntaram diretamente sobre ideação suicida a participantes. O resultado foi consistente: perguntar não aumentou a ideação. Em vários estudos, houve redução do sofrimento relatado.


A explicação é clínica e intuitiva. Quem não pensa em suicídio não passa a pensar porque foi perguntado. Quem já pensa costuma sentir alívio ao descobrir que o assunto pode ser dito em voz alta sem provocar pânico, julgamento ou ruptura do vínculo.


Este mito é tão central que dedicamos um artigo inteiro a ele nesta série.


Mito 3: "É só para chamar atenção"


Essa frase costuma aparecer diante de tentativas consideradas "de baixa letalidade" ou de falas repetidas sobre morte.


Duas correções são necessárias. A primeira: a letalidade do método não mede a intensidade do sofrimento: mede acesso, planejamento e conhecimento, variáveis que pouco dizem sobre a dor envolvida. A segunda: mesmo quando há um componente de comunicação no comportamento, isso não o torna menos grave. Uma pessoa que precisa recorrer a um gesto autolesivo para ser ouvida está sinalizando que os canais comuns de pedido de ajuda falharam.


Além disso, o histórico de tentativa prévia é um dos preditores mais robustos de morte por suicídio. Desqualificar uma tentativa como "encenação" é ignorar o principal fator de risco conhecido.


Mito 4: "Quem tenta suicídio quer morrer"


A experiência clínica e a pesquisa convergem em um ponto: a maioria das pessoas em crise suicida não quer morrer: quer que a dor acabe. A ambivalência é regra, não exceção.


É essa ambivalência que torna a prevenção possível. Mesmo em crise aguda, quase sempre existe uma parte da pessoa que hesita, que pensa em alguém, que reage a um contato inesperado. Intervir é dar tempo e apoio a essa parte.


É também por isso que a crise suicida tende a ser um estado, não um traço permanente. Estudos de acompanhamento de pessoas impedidas de completar tentativas mostram que a grande maioria não morre por suicídio posteriormente. A janela crítica passa quando alguém ajuda a atravessá-la.


Mito 5: "Se a pessoa melhorou de repente, o perigo passou"


Este mito engana justamente porque parece razoável. Alguém profundamente deprimido, retraído e sem energia amanhece calmo, organizado, quase aliviado. A família respira.


Em alguns casos, essa melhora súbita é sinal genuíno de recuperação. Em outros, é o efeito de uma decisão tomada: o conflito interno cessou e a angústia da indecisão deu lugar a uma tranquilidade aparente. Períodos de melhora parcial de energia (inclusive nas primeiras semanas de tratamento antidepressivo, quando a lentidão psicomotora cede antes do humor) exigem atenção redobrada, não relaxamento da vigilância.


O que observar: calma repentina após período de desespero intenso, despedidas, redação de cartas, distribuição de pertences, resolução súbita de pendências burocráticas.


Mito 6: "Suicídio é impulsivo, não há como prevenir"


Há de fato um componente impulsivo importante em muitas crises: o intervalo entre a decisão e o ato pode ser de minutos. Mas essa característica, ao contrário do que o mito sugere, é justamente o que torna a prevenção eficaz.


Se a janela é curta, dificultar o acesso ao meio durante a crise salva vidas. A restrição de meios é uma das intervenções com melhor evidência em toda a saúde pública: barreiras em pontes e edifícios, restrição de venda de determinados medicamentos e agrotóxicos, armazenamento seguro de armas de fogo, redução da quantidade de comprimidos por embalagem. Em contextos domésticos, isso se traduz em medidas simples: guardar medicamentos com um familiar, retirar meios letais do ambiente durante o período de risco.


Nenhuma dessas ações resolve o sofrimento de fundo. Todas compram o tempo necessário para que o tratamento faça efeito.


Mito 7: "Só quem tem depressão comete suicídio"


Transtornos mentais (especialmente depressão, transtorno bipolar, dependência química e esquizofrenia) aumentam substancialmente o risco. Mas a equação não é automática nos dois sentidos.


A maioria das pessoas com depressão não morre por suicídio. E parte das mortes ocorre em pessoas sem diagnóstico prévio, em contextos de crise aguda: perda financeira abrupta, exposição pública humilhante, luto, violência, término traumático, doença grave, encarceramento.


O uso de álcool merece menção específica: além de ser fator de risco crônico, atua de forma aguda desinibindo o comportamento e reduzindo a capacidade de considerar alternativas no exato momento da crise.


Mito 8: "É covardia" ou, na versão oposta, "é coragem"


Ambas as formulações erram pelo mesmo motivo: tratam o suicídio como uma escolha moral tomada em condições normais de julgamento.


O que a clínica descreve é outra coisa. É um estado mental caracterizado por constrição cognitiva: o campo de possibilidades se estreita até que a morte apareça como a única saída disponível. A pessoa não está escolhendo entre alternativas; está deixando de enxergá-las.


Julgamentos morais, além de imprecisos, produzem um efeito prático desastroso: aumentam a vergonha e reduzem a chance de que alguém em sofrimento peça ajuda.


Mito 9: "Falar sobre isso na mídia e nas redes só piora"


Aqui o mito contém uma verdade parcial que precisa ser bem delimitada.


O efeito Werther é real: coberturas que detalham método, romantizam a morte, sensacionalizam ou dão destaque excessivo a casos de figuras públicas estão associadas a aumento de casos subsequentes.


Mas existe o oposto. O efeito Papageno, descrito por Niederkrotenthaler e colaboradores em 2010, mostra que reportagens sobre pessoas que enfrentaram crises suicidas e encontraram alternativas estão associadas à redução de casos.


Ou seja: não é falar ou não falar. É como se fala. Falar sobre sofrimento, ambivalência, ajuda disponível e caminhos de recuperação protege. Detalhar método e estetizar a morte não.


Mito 10: "Perguntar é papel de profissional, eu não saberia o que fazer"


Tratamento é papel de profissional. Vínculo não é.


A maior parte das pessoas em crise fala primeiro com alguém do círculo próximo: um amigo, um colega, um familiar, alguém da igreja, um professor. O que se espera dessa pessoa não é conduzir uma avaliação de risco, mas escutar sem se assustar, não julgar, permanecer, e ajudar a acessar cuidado profissional.


Você não precisa ter a resposta certa. Precisa não desaparecer.


Por Que Desfazer Esses Mitos Importa


Cada um desses equívocos produz uma consequência concreta: alguém que não perguntou, alguém que minimizou, alguém que se calou por vergonha, uma família que relaxou a vigilância no pior momento, um profissional que não investigou.


A prevenção do suicídio não depende de heroísmo nem de conhecimento técnico avançado. Depende de informação correta circulando amplamente, de conversas que possam acontecer sem pânico, e de acesso real a cuidado quando ele é necessário.


Substituir mitos por evidência é a parte dessa tarefa que está ao alcance de qualquer pessoa, inclusive de quem está lendo este texto agora.


━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━


Se você está em sofrimento ou preocupado com alguém


CVV, Centro de Valorização da Vida: ligue 188 (gratuito, 24 horas) ou acesse cvv.org.br


Emergência: SAMU 192 · UPA ou pronto-socorro mais próximo


Rede pública: procure o CAPS ou a Unidade Básica de Saúde da sua região


Em situação de risco iminente, não deixe a pessoa sozinha e procure atendimento de emergência imediatamente.


━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━━


Estudos da Psique


Psicologia, Neurociência e Saúde Mental baseadas em evidências


Telefone/WhatsApp: 11 99135-1672



Comentários


Agende seu
Atendimento
Tel: (11) 99135-1672
E-mail: a.chavesbjj@gmail.com
Nos chame no Whatsapp também

Obrigado pelo envio!

© 2026 Todos os direitos reservados Estudos da Psique. Criado com 🤍 por Startz

bottom of page