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Estigma e Saúde Mental: Por Que Ainda Falhamos?

  • Antonio Chaves
  • 22 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura
estigma e saúde mental

Imagine que você quebrou a perna. Você não hesita em procurar ajuda — vai ao pronto-socorro, faz exame, gesso, fisioterapia. Conta para amigos, família, colegas de trabalho sem embaraço. Ninguém diz que você deveria simplesmente superar a dor sozinho, que você está exagerando, que é fraqueza. Agora imagine que você está com depressão severa. Não consegue sair da cama, perdeu o interesse em tudo, pensa em suicídio. Mas hesita em procurar ajuda. Tem vergonha. Teme ser julgado como fraco, louco, perigoso. Esconde de todos. E assim, sozinho, seu sofrimento se aprofunda.

 

Essa diferença de tratamento — entre doenças físicas e mentais — é o estigma. E ele mata. Literalmente. Pessoas com transtornos mentais vivem, em média, 10 a 20 anos menos do que a população geral, não apenas por causa das condições mentais em si, mas porque o estigma as impede de buscar ajuda, as exclui socialmente, as marginaliza economicamente. O estigma não é apenas um problema individual — é um problema estrutural, político, de justiça social.

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem pressionado governos a tratarem saúde mental como política de Estado. Mas, apesar de avanços importantes, ainda falhamos. Por quê? Porque o estigma está entrelaçado com racismo, desigualdade de gênero, pobreza, colonialismo e sistemas de opressão que moldam quem tem acesso a cuidado e quem fica de fora. Para entender o estigma, precisamos entender essas estruturas.

 

O Que É Estigma? Definições e Mecanismos

 

Erving Goffman, sociólogo pioneiro no estudo do estigma, definiu-o como um atributo profundamente desacreditador que reduz uma pessoa de alguém comum e completo a alguém manchado, desvalorizado. No contexto de saúde mental, estigma se manifesta de várias formas:

 

Estigma Público: Atitudes negativas, preconceitos e discriminações que a sociedade direciona a pessoas com transtornos mentais. Exemplos: acreditar que pessoas com esquizofrenia são violentas, que depressão é frescura, que adicção é escolha moral.

 

Estigma Estrutural: Políticas institucionais, leis e práticas que limitam oportunidades para pessoas com transtornos mentais. Exemplos: dificuldade de conseguir emprego por histórico psiquiátrico, seguros de saúde que cobrem menos tratamento mental do que físico, falta de investimento em saúde mental pública.

 

Autoestigma: Quando a própria pessoa internaliza as crenças negativas da sociedade. Ela passa a se ver como fraca, incapaz, menos merecedora de cuidado. O autoestigma leva à vergonha, ao isolamento e à relutância em buscar ajuda.

 

Estigma por Associação: Familiares, amigos e profissionais que trabalham com saúde mental também sofrem estigma. Pais de crianças com autismo, por exemplo, são muitas vezes culpabilizados.

 

O estigma funciona por meio de estereótipos (generalizações negativas), preconceitos (reações emocionais negativas) e discriminação (comportamentos que prejudicam). Juntos, esses mecanismos criam barreiras massivas para acesso a cuidado, emprego, moradia, educação e dignidade.

 

Racismo e Saúde Mental: As Feridas Invisíveis

 

Não é possível falar de estigma em saúde mental sem falar de racismo. Pessoas negras e indígenas enfrentam barreiras adicionais e específicas ao buscar cuidado.

 

Trauma Histórico e Racismo Estrutural

Séculos de escravidão, colonização, genocídio e segregação deixaram marcas profundas na saúde mental de populações racializadas. O trauma não é apenas individual — é intergeracional. Estudos em epigenética mostram que o trauma pode ser transmitido geneticamente, afetando gerações.

 

No Brasil, a população negra tem menor acesso a serviços de saúde mental, maior risco de internações involuntárias, maior uso de contenção física e química, e maior probabilidade de receber diagnósticos estigmatizantes como esquizofrenia em vez de depressão ou transtorno bipolar. Jovens negros têm risco 3 vezes maior de morte violenta do que jovens brancos — e o impacto psicológico de viver sob constante ameaça é devastador.

 

Desconfiança Justificada

Populações negras têm motivos históricos para desconfiar de instituições de saúde. Experimentos médicos não éticos (como o estudo Tuskegee nos EUA, onde homens negros com sífilis foram deliberadamente não tratados), violência obstétrica desproporcional, racismo médico — tudo isso cria uma barreira legítima. Quando uma pessoa negra hesita em procurar um psiquiatra, muitas vezes não é apenas por estigma — é por medo racional de ser maltratado.

 

Gênero, Saúde Mental e Estigma

 

O estigma em saúde mental também é profundamente generificado.

 

Mulheres: Têm maior risco de diagnóstico de depressão e ansiedade — mas parte disso pode refletir viés diagnóstico. Sintomas de sofrimento emocional em mulheres são medicalizados, enquanto em homens são ignorados. Mulheres que buscam ajuda são vistas como frágeis ou histéricas. Mulheres negras, em particular, enfrentam o estereótipo da mulher forte que aguenta tudo sozinha, o que as impede de buscar ajuda.

 

Homens: Sofrem estigma diferente. Masculinidade tóxica ensina que homens devem ser fortes, invulneráveis, autossuficientes. Pedir ajuda é visto como fraqueza. O resultado? Homens têm menor probabilidade de buscar tratamento para depressão e ansiedade — mas taxas de suicídio 3 a 4 vezes maiores do que mulheres.

 

Pessoas LGBTQIA+: Enfrentam discriminação, violência e rejeição familiar em taxas alarmantes. Estudos mostram que jovens LGBTQIA+ têm risco 4 vezes maior de tentativa de suicídio do que jovens cisgênero e heterossexuais. Muitos profissionais de saúde mental ainda acreditam em terapias de conversão (que são tortura) ou não sabem como trabalhar com questões de identidade de gênero e orientação sexual de forma afirmativa.

 

Pobreza, Desigualdade e Acesso a Cuidado

 

A saúde mental não é democraticamente distribuída. Pobreza é tanto causa quanto consequência de transtornos mentais.

 

Estresse Crônico da Pobreza

Viver em pobreza significa exposição constante a estressores: insegurança alimentar, moradia precária, violência, falta de acesso a educação e saúde. O estresse crônico ativa o eixo HPA repetidamente, levando a alterações neurobiológicas que aumentam risco de depressão, ansiedade e TEPT.

 

Barreiras de Acesso

Pessoas pobres têm menor acesso a serviços de saúde mental. Psicoterapia privada é cara. Serviços públicos, quando existem, têm longas listas de espera. Faltam profissionais em periferias e áreas rurais. Além disso, há o custo de oportunidade: faltar ao trabalho para ir a uma consulta pode significar perda de renda que a família não pode se dar ao luxo.

 

Ciclo Vicioso

Transtornos mentais não tratados levam à perda de emprego, redução de produtividade, dificuldades em manter relacionamentos — tudo isso perpetua a pobreza. Sem tratamento adequado, a pessoa fica presa em um ciclo de sofrimento e marginalização.

 

Dependência Química e Estigma Duplo

 

Pessoas que sofrem de dependência química enfrentam estigma duplo: pela saúde mental e pelo uso de drogas. São vistas como moralmente falhas, perigosas, não merecedoras de cuidado.

 

A guerra às drogas criminalizou usuários, lotou prisões, destruiu famílias. Em vez de oferecer tratamento, a sociedade pune. E o estigma é tão forte que muitas pessoas preferem sofrer em silêncio a buscar ajuda, com medo de serem presas, demitidas ou rejeitadas.

 

Políticas baseadas em evidências — como redução de danos, descriminalização, programas de troca de seringas — funcionam. Mas são resistidas exatamente por causa do estigma moral. A ideia de que pessoas que usam drogas são menos humanas, menos merecedoras de compaixão, ainda domina.

 

Como Combater o Estigma? Estratégias Baseadas em Evidências

 

Combater estigma não é tarefa simples. Requer mudanças em múltiplos níveis: individual, comunitário, institucional e político.

 

1. Contato Direto com Pessoas com Experiência Vivida

A estratégia mais eficaz para reduzir estigma é o contato direto com pessoas que têm transtornos mentais. Quando alguém compartilha sua história de forma autêntica — mostrando que é uma pessoa completa, complexa, digna — estereótipos se quebram. Programas como Time to Change (Reino Unido) e Bell Let's Talk (Canadá) usam narrativas pessoais para humanizar a saúde mental.

 

2. Educação e Alfabetização em Saúde Mental

Ensinar desde cedo — em escolas, universidades, comunidades — sobre o que são transtornos mentais, suas causas biopsicossociais, tratamentos eficazes. Desmistificar, desestigmatizar, normalizar. Quanto mais as pessoas sabem, menos temem.

 

3. Campanhas de Mídia Responsável

A mídia tem enorme poder de moldar percepções. Filmes, séries, notícias que retratam pessoas com transtornos mentais como violentas, imprevisíveis ou cômicas reforçam estigma. Diretrizes de jornalismo responsável — como evitar termos como louco, maluco, psicopata — fazem diferença.

 

4. Políticas Antidiscriminação

Leis que protegem pessoas com transtornos mentais de discriminação em emprego, moradia, educação. Obrigar seguros de saúde a cobrir tratamento mental no mesmo nível que físico. Investir massivamente em saúde mental pública.

 

5. Engajamento Comunitário e Advocacy

Empoderar pessoas com experiência vivida a se tornarem defensoras, líderes, formuladoras de políticas. Nothing about us without us — nada sobre nós sem nós — deve ser o princípio guia.

 

6. Formação de Profissionais de Saúde

Médicos, enfermeiros, psicólogos também podem ter preconceitos. Treinamento em competência cultural, antirracismo, abordagens afirmativas de gênero — tudo isso reduz estigma dentro do sistema de saúde.

 

Saúde Mental Como Política de Estado: O Que a OMS Está Propondo?

 

A OMS publicou recentemente o Comprehensive Mental Health Action Plan 2013-2030, instando governos a:

 

Aumentar investimento: Muitos países gastam menos de 2% do orçamento de saúde em saúde mental. A OMS recomenda pelo menos 5%.

 

Integrar saúde mental na atenção primária: Para que cuidado seja acessível a todos, não apenas a quem pode pagar clínicas privadas.

 

Desospitalização e cuidado comunitário: Encerrar manicômios desumanos, investir em serviços comunitários, moradias assistidas, suporte no território.

 

Promoção e prevenção: Não apenas tratar doença, mas promover bem-estar mental desde a infância.

 

Combate ao estigma e discriminação: Campanhas nacionais, legislação protetiva, inclusão social.

 

Alguns países estão liderando: Nova Zelândia criou o primeiro orçamento de bem-estar, que mede sucesso não apenas por PIB, mas por indicadores de saúde mental e qualidade de vida. Portugal descriminalizou drogas e investiu em tratamento. Escócia implementou currículo de educação emocional em todas as escolas.

 

Conclusão: Um Chamado à Ação Coletiva

 

Estigma mata. Ele mata porque impede pessoas de buscar ajuda. Ele mata porque legitima discriminação. Ele mata porque permite que sociedades ignorem o sofrimento de milhões.

 

Mas estigma não é inevitável. Ele é socialmente construído — e pode ser socialmente desconstruído. Cada um de nós tem papel nessa mudança. Cada conversa honesta sobre saúde mental importa. Cada vez que desafiamos um estereótipo, importa. Cada vez que oferecemos compaixão em vez de julgamento, importa.

 

Governos precisam agir: investir, legislar, proteger. Profissionais de saúde precisam agir: oferecer cuidado culturalmente competente, livre de preconceitos. Comunidades precisam agir: acolher, incluir, apoiar. E cada pessoa precisa agir: falar abertamente, buscar ajuda quando precisa, oferecer ajuda quando pode.

 

Saúde mental é direito humano fundamental. Não privilégio. Não luxo. Direito. E enquanto estigma existir, esse direito está sendo negado. Então a pergunta é: o que você vai fazer hoje para mudar isso?

 

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