O Papel das Redes Sociais na Formação da Autoestima: Entre a Dopamina Digital e a Busca por Validação
- Antonio Chaves
- 22 de dez. de 2025
- 7 min de leitura

Quantas vezes você checou suas redes sociais hoje? Antes mesmo de sair da cama, ao acordar, você provavelmente pegou o celular. Ao longo do dia, em filas, no trânsito, em intervalos de trabalho — mais algumas dezenas de vezes. E antes de dormir, mais uma olhada rápida. Se essa descrição te soa familiar, você não está sozinho. Estudos mostram que, em média, pessoas checam seus smartphones mais de 150 vezes por dia, e grande parte dessas checagens envolve redes sociais.
O que aconteceu conosco? Como chegamos ao ponto de depender tanto dessas plataformas para nos sentirmos bem — ou mal — conosco? E por que, mesmo quando sabemos que rolar infinitamente o feed nos deixa ansiosos, inseguros e exaustos, não conseguimos parar? A resposta está na interseção entre neurociência, psicologia e o design intencional dessas tecnologias. Vamos entender como as redes sociais moldam nossa autoestima, por que isso acontece, e o que podemos fazer para recuperar o controle.
O Cérebro e a Dopamina Digital: Como as Redes Sociais Sequestram Nosso Sistema de Recompensa
Para entender o impacto das redes sociais na autoestima, precisamos falar de dopamina. A dopamina é um neurotransmissor associado ao sistema de recompensa do cérebro. Sempre que fazemos algo que nosso cérebro interpreta como prazeroso ou recompensador — comer, fazer sexo, receber elogios, conquistar algo — há liberação de dopamina, especialmente em regiões como o núcleo accumbens e o córtex pré-frontal ventromedial.
Agora, pense no que acontece quando você posta uma foto no Instagram. Você espera. A cada curtida, cada comentário, cada compartilhamento, há uma pequena descarga de dopamina. Seu cérebro aprende: postar = recompensa social = prazer. Isso cria um ciclo de reforço positivo. Com o tempo, você passa a buscar ativamente essas interações, não por interesse genuíno, mas porque seu cérebro foi condicionado a buscar aquele estímulo dopaminérgico.
Mas há um problema: o reforço intermitente. As redes sociais não recompensam de forma previsível — às vezes sua postagem viraliza, às vezes não. Essa imprevisibilidade aumenta ainda mais o comportamento compulsivo, porque o cérebro continua buscando a próxima recompensa incerta. É o mesmo mecanismo das máquinas caça-níqueis: você não sabe quando vai ganhar, então continua puxando a alavanca. Nas redes sociais, você continua rolando, postando, checando.
E quando a recompensa não vem? Quando a foto que você caprichou recebe poucas curtidas, quando ninguém comenta, quando você vê outras pessoas recebendo mais atenção? Seu cérebro interpreta isso como rejeição social, ativando regiões cerebrais relacionadas à dor — especificamente o córtex cingulado anterior dorsal. A dor da rejeição online é processada de forma semelhante à dor física. Isso explica por que uma postagem ignorada pode doer tanto.
A Comparação Social: O Veneno Invisível da Autoestima
Leon Festinger, psicólogo social, propôs em 1954 a teoria da comparação social: humanos avaliam suas próprias opiniões e capacidades comparando-se com os outros. É um mecanismo evolutivo útil para nos situarmos socialmente. Mas, no contexto das redes sociais, a comparação social tornou-se uma fonte constante de sofrimento.
Existem dois tipos de comparação: ascendente e descendente. A comparação ascendente ocorre quando nos comparamos com quem percebemos como superior — mais bonito, mais bem-sucedido, mais feliz. A comparação descendente ocorre quando nos comparamos com quem percebemos como inferior. Em condições normais, comparação ascendente pode ser motivadora, e descendente pode ser reconfortante.
Mas nas redes sociais, quase toda comparação é ascendente. Por quê? Porque as pessoas só postam as versões editadas, filtradas e cuidadosamente curadas de suas vidas. Ninguém posta a bagunça da casa, a briga com o parceiro, o dia de trabalho exaustivo. O que vemos são viagens paradisíacas, corpos perfeitos, carreiras brilhantes, relacionamentos harmoniosos. E nosso cérebro, que não evoluiu para distinguir entre realidade e representação digital, compara nossa vida comum com essas versões idealizadas.
O resultado? Sentimentos de inadequação, inveja, baixa autoestima e desesperança. Estudos longitudinais mostram que pessoas que passam mais tempo em redes sociais — especialmente de forma passiva, apenas rolando o feed — têm níveis mais altos de sintomas depressivos e ansiosos. A comparação constante ativa processos cognitivos de ruminação: por que minha vida não é assim? O que há de errado comigo? Por que os outros conseguem e eu não?
Autoestima Contingente: Quando o Valor Próprio Depende de Curtidas
A autoestima pode ser entendida de duas formas: intrínseca e contingente. A autoestima intrínseca é aquela baseada no valor próprio incondicional — eu tenho valor porque sou humano, independentemente de minhas conquistas ou aparência. A autoestima contingente, por outro lado, depende de fatores externos: aparência física, desempenho acadêmico, aprovação social.
As redes sociais fomentam autoestima contingente. Seu valor passa a depender de quantas curtidas você recebe, de quantos seguidores você tem, de quão perfeitas são suas fotos. Isso cria uma vulnerabilidade psicológica enorme, porque fatores externos são, por definição, instáveis e incontroláveis. Hoje você pode ter mil curtidas, amanhã apenas cinquenta. E cada variação dessas métricas afeta diretamente como você se sente sobre si mesmo.
Pesquisas mostram que adolescentes e jovens adultos são especialmente vulneráveis a esse fenômeno, porque estão em uma fase de formação de identidade. A busca por pertencimento, aceitação e validação é intensa nessa fase do desenvolvimento. Quando essa busca é mediada por redes sociais, a autoestima se torna refém de algoritmos e da opinião de desconhecidos.
A Terapia Cognitivo-Comportamental e o Manejo do Uso de Redes Sociais
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) oferece ferramentas valiosas para lidar com o impacto negativo das redes sociais na autoestima. A TCC parte do princípio de que nossos pensamentos, emoções e comportamentos estão interconectados. Quando modificamos padrões de pensamento disfuncionais, conseguimos alterar nossas emoções e comportamentos.
Identificação de Pensamentos Automáticos Negativos
Um dos primeiros passos na TCC é identificar pensamentos automáticos negativos. No contexto das redes sociais, esses pensamentos podem incluir: Ninguém me curtiu, logo ninguém gosta de mim. Fulano tem uma vida perfeita, a minha é um fracasso. Se eu não postar, vão me esquecer. Esses pensamentos são rápidos, automáticos e muitas vezes distorcidos. A TCC ensina a questioná-los: isso é realmente verdade? Estou generalizando? Estou catastrofizando?
Reestruturação Cognitiva
Depois de identificar os pensamentos disfuncionais, o próximo passo é reestruturá-los. Por exemplo: Ninguém me curtiu pode ser reestruturado para Curtidas não definem meu valor. Tenho amigos reais que me apreciam. Ou: Fulano tem uma vida perfeita pode virar Estou vendo apenas o que ele quer mostrar. Todo mundo tem dificuldades, mesmo que não postem sobre isso. Essa reestruturação enfraquece a ligação entre redes sociais e autoestima.
Experimentos Comportamentais
A TCC também usa experimentos comportamentais para testar crenças. Por exemplo: se você acredita que não postar por uma semana vai fazer com que as pessoas te esqueçam, o terapeuta pode sugerir um experimento — fique uma semana sem postar e observe o que realmente acontece. Geralmente, as pessoas descobrem que a vida continua, que amigos verdadeiros não desaparecem, e que a ansiedade de não postar diminui com o tempo.
Técnicas de Mindfulness e Autorregulação
Mindfulness — atenção plena ao momento presente, sem julgamento — pode ajudar a reduzir o uso compulsivo de redes sociais. Quando sentir o impulso de pegar o celular, pause. Pergunte-se: Por que estou fazendo isso agora? Estou entediado? Ansioso? Buscando validação? Apenas nomear o impulso já cria uma distância psicológica que facilita escolhas mais conscientes.
Estratégias Práticas para Uso Saudável de Redes Sociais
Não é necessário — nem realista — eliminar completamente as redes sociais da vida. Mas é possível usá-las de forma mais saudável. Aqui estão estratégias baseadas em evidências:
1. Estabeleça Limites de Tempo
Use ferramentas de controle de tempo de tela para limitar o uso de redes sociais a 30-60 minutos por dia. Estudos mostram que reduzir o tempo de uso para menos de 30 minutos por dia diminui significativamente sintomas de depressão e solidão.
2. Desative Notificações
Notificações automáticas interrompem constantemente seu foco e ativam o ciclo de checagem compulsiva. Desative-as. Você pode checar suas redes em horários específicos, de forma intencional.
3. Siga Contas que Promovam Bem-Estar
Faça uma curadoria consciente do seu feed. Deixe de seguir contas que promovem comparação, padrões inatingíveis ou que te fazem sentir mal. Siga contas que educam, inspiram positivamente e promovem autoaceitação.
4. Priorize Interações Ativas, Não Passivas
Rolar o feed passivamente está associado a maior sofrimento psíquico. Em vez disso, use redes sociais de forma ativa: comente genuinamente, envie mensagens privadas para amigos, compartilhe conteúdos que importam para você. Interações significativas aumentam conexão social real.
5. Pratique o Desapego Digital Regular
Faça pausas. Um fim de semana por mês sem redes sociais. Um dia por semana. Essas pausas ajudam a redefinir sua relação com a tecnologia e a perceber que você não precisa estar conectado o tempo todo.
6. Cultive Autoestima Intrínseca
Trabalhe com um psicólogo para desenvolver autoestima baseada em valores internos, não em validação externa. Pratique autocompaixão: trate-se com a mesma gentileza que trataria um amigo querido.
Conclusão: Retomando o Controle da Sua Autoestima
As redes sociais vieram para ficar. Elas têm potencial para conectar, educar e mobilizar. Mas também têm o poder de nos adoecer se usadas de forma inconsciente. A questão não é se você deve ou não usar redes sociais, mas como você as usa. Você está no controle? Ou elas controlam você?
Sua autoestima não deveria depender de curtidas. Seu valor não está em métricas digitais. Você é mais do que uma foto filtrada, mais do que um número de seguidores. E quanto mais você lembrar disso — quanto mais cultivar autoestima intrínseca, conexões reais e uso consciente da tecnologia — mais livre você será.
Se você percebe que as redes sociais estão afetando sua saúde mental, procure ajuda. A TCC, com suas técnicas de reestruturação cognitiva e mudança comportamental, pode ser uma ferramenta poderosa. E lembre-se: pedir ajuda não é fraqueza — é coragem.
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